domingo, 14 de agosto de 2016

Um Herói de um Gênero Novo



UM HERÓI DE UM GÊNERO NOVO


Ele não surge da noite, tal Zorro, para correr rumo à aventura a galope. Não, Mike T. Blueberry (o T. se transformará em S., para Steve, mais tarde) apareceu pela primeira vez, de face, no sétimo quadrinho de Forte Navajo, à mesa, cartas na mão e charuto no bico, em uma casa de jogo. Certamente, ele não tinha ainda sua barba de três dias – poderia mesmo ele ter se lavado recentemente? -, para que se pudesse bem admirar seu pequeno ar de Belmondo (1) insolente. Mas o espírito do personagem e da série já está presente. Em duas páginas, se saberá que ele trapaceia no jogo, que ele coxeia de álcool e não despreza uma boa briga, tanto mais que ele atira rápido e certeiro. A longa busca através de um Oeste selvagem e desordenado pode desatracar. Uma saga aos princípios falsamente clássicos que vai simplesmente revolucionar todo o universo familiar da história em quadrinhos.

N. C.: 1) Jean-Paul Belmondo, ator francês.






PRIMEIRA APARIÇÃO, 
QUADRO CHEIO, 
DE BLUEBERRY, 
EM FORT NAVAJO.





Blueberry é então nascido em 31 de outubro de 1963, em Pilote, do cérebro fecundo de Jean-Michel Charlier e da pena alerta de Gir, aliás, Jean Giraud. O primeiro, diretor das edições Dargaud que já roteirizava Buck Danny, La Patrouille des Castors, Marc Dacier, “Les Chevaliers du ciel”, Le Démon des Caraïbes e tantas outras séries de sucesso, era apaixonado pela América e pela história do Oeste. O segundo, jovem desenhista promissor, para não dizer sobredotado, amante de westerns e formado na escola ideal do grande Jijé. Os dois foram feitos para se entender e, mais ainda, se completar.



Blueberry introduz no universo HQ da época,
principalmente adolescente, uma referência
à outra cultura, mais de vanguarda.



Físico atípico

“A escolha do nome, foi eu”, se lembra Jean Giraud. “Eu amei o som, a fonética de Blueberry, e isso, imediatamente, mais a Jean-Michel. É isso que pode ter dado a ele a ideia de fazer um Sulista que passa ao Norte. Quanto à escolha de Belmondo, para os traços, isso trairia bem uma vontade. Não se imaginaria então que Bébel iria tornar-se tal ícone popular. Para nós, era justo uma figura da Nouvelle Vague com um ar de outsider, um físico atípico com relação aos jovens em voga. Ele tinha um aspecto de rapazinho. Assim, eu introduziria no universo HQ da época, principalmente adolescente, uma referência à outra cultura, mais de vanguarda.”


EM POUCO MAIS 
DE DEZ ANOS, 
BLUEBERRY SE TEM 
METAMORFOSEADO 
DE UM INSOLENTE 
E NEGLIGENTE
TENENTE DE ROSTO 
LISO EM UMA APARÊNCIA 
RESSECADA, ENDURECIDA 
AOS TRAÇOS MARCADOS.






























Representante da desordem

Assim, se Charlier explora, como era seu hábito, seu excepcional saber-fazer de contador de histórias, misturando sua precisão de documentarista à sua arte de inventar, semana após semana, as situações e as reviravoltas que mantém sem faltar o leitor em fôlego, ele encontra em Gir um desenhista que arrebata suas narrativas mais longe ainda, ruma a esferas que ele não tinha imaginado. O estilo cinematográfico, brilhantemente desalinhado, em uma expressão realista, que entorta as convenções, está em fase com a época, os anos 1960, onde certa contestação e emancipação são em colocação. Os leitores de Pilote, revista mais estudantil que pré-adolescente, plebiscitam esse herói de um gênero novo, iconoclasta e rebelde, refratário à autoridade, contestatário da hierarquia. Blueberry tem sido um bom militar totalmente ao longo dos dez primeiros álbuns da série, ele não é inferior e constantemente um representante da desordem.

“Jean-Michel, imediatamente, tem compreendido que esse desvio dos cânones da HQ tradicional constituía um formidável trunfo”, analisa Giraud. “Um público novo emergia, que não se encontrava no ultraconservadorismo de uma série como, por exemplo, Tanguy et Laverdure. Charlier tem captado, perfeitamente, essa escorregadela.” Blueberry, portanto, não tem mais nada do personagem direito e sem censura que sempre havia sido colocado em evidência até ali. O importante restava justo que, apesar de todas as suas manias e defeitos, ele permanece simpático.


Sujeira, fadiga e sofrimento

Mike, militar insubordinado, malandro em boa essência, não se estende em quase nada com as pessoas higiênicas em si mesmas. Seus raros amigos se contam de preferência entre os seres delicados à moralidade duvidosa, começando por um velho bêbado prospector, Jimmy McClure, e um antigo mensageiro do US Postal pouco reluzente, Red Neck. À semelhança desses dois companheiros de estrada, ele desfralda a maior parte do tempo uma barba nascente que se imagina imunda. Pois, “Blueberry” é provavelmente uma das primeiras séries “odorama”. Saído do exército (que o tenente deixará com a cabeça um tanto baixa após Chihuahua Pearl) e da alta sociedade, a sujeira e a falta de higiene, como a fadiga e o sofrimento, são ao desvio de cada aventura. “Até ali, é verdade que a HQ era muito assepsiada”, se recorda ainda Giraud. “Tal não se fazia que livrar os sinais sobre a aflição dos seres humanos, sobre suas patologias; sobre a morte, em suma.”




Destino selado, herói livre

Mas ali não se detém a transgressão. Preso no jogo, estimulado por uma criação que lhe oferece tantos campos, Jean-Michel Charlier rompe outro tabu. Quebrando a tradicional atemporalidade dos heróis de HQ, ele se diverte, em paralelo às aventuras de Blueberry, que se prosseguem em Pilote, a colocar em cena em Super Pocket Pilote os jovens anos – sua implicação na Guerra de Secessão – de seu personagem. Ancorando-o no tempo, o autor não somente introduz a noção de envelhecimento, mas também aquela de um percurso e de um passado que influenciam, inevitavelmente, sobre sua psicologia.

Mais forte ainda, em prefácio na edição do álbum de Ballade pour un cercueil, o roteirista vai até redigir uma longa biografia detalhada de Blueberry, pseudo documentos de época no apoio, onde se sabe que ele tem visto a luz em 30 de outubro de 1843, nas proximidades de Augusta, Geórgia, sob o nome de Mike Steve Donovan, para morrer, nonagenário, em 5 de dezembro de 1933 em Chicago! Ironia da sina, é selando assim o destino de seu personagem que Charlier pode ter, inconscientemente, libertado Blueberry da tutela de seus criadores. Desde a metade dos anos 1980, Giraud, monopolizado por seu trabalho sob o nome de Mœbius, deixa o desenho da coleção La Jeunesse de Blueberry aos bons cuidados de Colin Wilson. Mas, sobretudo, após o falecimento do roteirista, em 1989, quando Arizona Love está em curso de realização, Jean Giraud não se contenta de prosseguir naturalmente a série, assegurando doravante ele mesmo a escritura, ele confiará a outros (os desenhistas William Vance, Michel Blanc-Dumont e, ainda, Colin Wilson para o desenho, mas também François Corteggiani para o roteiro) o cuidado de desenvolver as séries paralelas.


Blueberry, condenado a viver

“Com essa biografia, se tem colocado o eixo em uma engrenagem louca”, conclui Giraud. “Tem-se aberto aquela possibilidade de tratar Blueberry de modo panorâmico, fazer publicar, em simultâneo, os álbuns onde ele é jovem, menos jovem e por que não, um dia, velho? Se poderia mesmo contar a história de sua morte sem para tanto que a série se acabe. Blueberry é um companheiro de vida extremamente familiar. Ele é parte de mim mesmo, então eu tomei o cuidado de não tombar no fetichismo. É por isso que eu tenho feito os esforços para deixá-lo se evadir o confiando a outros. No fundo, Blueberry conhece a angústia de ser condenado a viver por seu criador.”



«Publicando sua biografia, se tem colocado
 o eixo em uma engrenagem louca. Tem-se
aberto aquela possibilidade de tratar
Blueberry de modo panorâmico, fazer
publicar, em simultâneo, os álbuns onde
ele é jovem, menos jovem e por que não,
um dia, velho?» Jean Giraud






CASACAS AZUIS, COWBOYS E ÍNDIOS
EM LE CHEVAL DE FER, EM 1966.
MAS PARA BLUEBERRY, O WESTERN
CLÁSSICO JÁ TOCA EM SEU FIM.
A HORA DOS COMBATES MAIS
ÍNTIMOS VAI SOAR (L’HOMME QUI
VALAIT 500000 DOLLARS, 1971).
1990, GIRAUD PROSSEGUE SÓ
A SÉRIE, APÓS O FALECIMENTO
DE JEAN-MICHEL CHARLIER:
ARIZONA LOVE OFERECE UMA
COMPANHEIRA AO HERÓI SOLITÁRIO.


Fonte: Un héros d’un genre nouveau, artigo publicado em Blueberry HC Les Monts de la Superstition.

Blueberry HC Les Monts de la Superstition © Jean-Michel Charlier / Jean Giraud - Dargaud Éditeur 2003

N. C.: Blueberry HC Les Monts de la Superstition. Integral de Blueberry dos volumes 11, La Mine de l’Allemand perdu (“A Mina do Alemão Perdido”), e 12, Le Spectre aux balles d’or (“O Espectro das Balas de Ouro”); Dyptique de la mine (Díptico da Mina) mais um caderno de 16 páginas com artigos, entre os quais Un héros d’un genre nouveau (Um Herói de um Gênero Novo), e “Blueberry” visto por outros desenhistas. O álbum Les Monts de la Superstition (“Os Montes da Superstição”) foi publicado, em 2003, por ocasião dos 40 anos do personagem Blueberry.

Fontes das imagens: BDgest: Mike Blueberry. 4.bp: Tenente Blueberry jovem. Bedetheque: “Blueberry” nº 1 “Fort Navajo”, prancha 1, quadrinho 7; ilustração da capa de “Blueberry” nº 15 “Ballade pour un cercueil”. Stripsuithedenenverleden: Blueberry amadurecido (N. C.: extrato da prancha 1 de “Blueberry” nº 17 “Angel Face”). Dargaud Éditeur: as capas de “Blueberry” nº 7 “Le Cheval de fer”, “Blueberry” nº 14 “L’Homme qui valait 500000$” e “Blueberry” nº 23 “Arizona Love”.


Afrânio Braga


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Exposição Colin Wilson na Livraria Bulles en Tête

Exposição Colin Wilson
na Livraria Bulles en Tête



9 de setembro de 2014

Acabei de voltar da gráfica com um caixote do novo sketchbook. Parece ótimo! Este aqui é para a viagem europeia, mas os amigos daqui também vão encontrar umas imagens por lá que serão bastante familiares.


2 de novembro de 2015

Mesmo sendo feito dois anos mais tarde, ele já não parece mais tanto com Blueberry quanto já pareceu! Fora isso, essa é a capa do meu terceiro caderno de esboços.









16 de setembro de 2014

A esta hora, na próxima semana, eu devo estar, na França, preparando as ilustrações para a minha segunda exposição na livraria Bulles en Tête, em Paris. A inauguração está marcada para o dia 25, o mesmo dia em que a editora Delcourt lançará nossa nova série “Wonderball”, e eu estarei presente para a minha primeira sessão de autógrafos desta viagem. Estive trabalhando em material novo para esta exposição durante o último ano, então para aqueles que não podem ir à inauguração, eu vou tentar postar uma ou duas imagens da arte criada para a exposição nos próximos dias.



20 de setembro de 2014

OK, só mais uma imagem antes de eu desligar esta coisa...

N. C.: Chihuahua Pearl, cujo verdadeiro nome é Lily Calloway, em um saloon, é a mais famosa das namoradas de Mike Blueberry, que termina nos braços de Dorée Malone, uma bela morena, também cantora de saloon. Nesse desenho, Blueberry está presente: à esquerda, no alto, junto à aba do chapéu da loira estonteante.


N. C.: Alguns dos desenhos de Blueberry na exposição da Bulles en Tête:





















N. C.: Paris, França. Véspera da inauguração da Exposição Colin Wilson na Livraria Bulles en Tête, realizada em setembro e outubro de 2014, da obra do desenhista em “Wonderball” e “La Jeunesse de Blueberry” e desenhos inéditos de Blueberry. Fotografias feitas pela equipe da livraria em 24 de setembro de 2014:













N. C.: Colin Wilson enviou para o blog Blueberry os dois desenhos do Tenente Mike Blueberry expostos na vitrine da livraria Bulles en Tête na ocasião da sua exposição:


24 de julho de 2016

O homem, à esquerda de Mike, se parece com Bowman, mas não é, porque ele morreu cedo na vida de Blueberry. Mas essa é Chihuahua Pearl.



31 de julho de 2016

N. C.: Blueberry, sobre uma pista, com um parceiro.


N. C.: Os quatro desenhos abaixo não integravam a exposição de Colin Wilson:


18 de agosto de 2015

OK! Com “Wonderball” 3 terminado, é hora de um pouco de Terapia Ocupacional MSB.



8 de setembro de 2015

Durante uma entrevista que eu fiz há duas semanas, perguntaram-me "qual era o meu favorito de todos os personagens secundários da série Blueberry". Já me perguntaram isso antes, e eu sempre respondi Red Neck, porque ele parecia um cara interessante, obviamente já tinha feito de tudo, mas ainda era um tanto misterioso. E ele era legal de desenhar também.



10 de abril de 2016

Um pouco de diversão com o material dos velhos tempos...



14 de abril de 2016

Mais diversão com diligência...



5 de agosto de 2016

O momento dos autógrafos e dedicatórias nessa exposição. O coroteirista Jean-Pierre Pécau está atrás de mim e Jean-Paul Fernandez, o nosso colorista de “Wonderball”, à minha esquerda.




Colin Wilson

N. C.: Colin Wilson desenhou seis álbuns da série “La Jeunesse de Blueberry” (“A Juventude de Blueberry”) - três com roteiros de Jean-Michel Charlier e os demais com roteiros de François Corteggiani -, coloridos por Janet Gale, sua esposa, que também coloriu “Le Bout de la piste” (“O Fim da Pista”), volume 22 da série “Blueberry”. Natural de Christchurch, Nova Zelândia, ele mora em Melbourne, Austrália, onde realiza o seu magnífico e renomado trabalho na 9ª arte.


Tradução: Pedro Bouça, Lisboa, Portugal: textos das imagens 1 a 6, 25 e 26; Afrânio Braga: textos das imagens 23, 27, 28 e 29. Adaptação: Afrânio Braga. Fontes das imagens: Colin Wilson: 1 a 6; 23 a 30; Librairie Bulles en Tête: 7 a 22.

A série “Blueberry” foi criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud.

Blueberry © Jean-Michel Charlier / Jean Giraud – Dargaud Éditeur
Exposition Colin Wilson © Colin Wilson - Librairie Bulles en Tête 2014

Agradecimentos a Colin Wilson e à livraria Bulles em Tête pela gentil permissão para publicar sobre a exposição no blog Blueberry.

Afrânio Braga
Manaus, Amazonas, Brasil

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Dez razões de lamentar Jean Giraud, aliás, Moebius



Dez razões de lamentar Jean Giraud, aliás, Mœbius

Por Baptiste Manzinali
Publicado em 28/10/2010 às 14:00 h, atualizado em 12/03/2012 às 14:43 h


Mœbius é morto esse sábado. Duas assinaturas (ao menos) para um mesmo autor, cuja influência tem largamente ultrapassado o universo da história em quadrinhos.
DR

Ele não retomará mais seus lápis. O desenhista e roteirista de história em quadrinhos Jean Giraud, aliás, Mœbius, é morto esse sábado, de manhã, em Paris. Ele morre após longos anos de doença, tem anunciado uma de suas colaboradoras próximas.

Jean Henri Gaston Giraud, seu verdadeiro nome, teria 74 anos em maio. Dez razões de lamentá-lo.


1. Ele tem começado na história em quadrinhos aos 17 anos.

Nascido em 8 de maio de 1938, em Nogent-Sur-Marne, França, no seio de uma família modesta sem sensibilidade particular pelas artes, Jean Giraud se tem apaixonado muito rápido pelos cowboys. “Aos 7 anos, eu rabiscava os colts nas margens de meus cadernos. Suas formas misteriosas, mutantes, me fascinaram”, ele explica em uma entrevista a “L’Express”. Aos 16 anos, ele começa uma formação em Arts Appliqués. Um ano mais tarde, ele cria sua primeira história em quadrinhos, Frank et Jérémie, publicada, em 1956, em sete números do mensal Far-West. Já, o adolescente imagina seu próprio universo, emprestando às lendas da História americana e às paisagens da América Central, que ele reutilizará para outras colaborações, notadamente com o desenhista Jijé na série Jerry Spring.


2. Ele é o autor da saga Blueberry.

Muito rápido, o jovem homem se faz um nome no meio da história em quadrinhos. No início dos anos 1960, a “Nona Arte” se emancipa. Em 1963, a revista Pilote, que procura uma série western, faz chamada a ele e publica o primeiro número da saga Blueberry, sob um roteiro de Jean-Michel Charlier. O álbum, Fort Navajo, sairá dois anos mais tarde, em 1965. Inspirado em Jean-Paul Belmondo, o personagem principal evolui sensivelmente após Maio de 1968. A censura aplicada, até ali, na literatura para a juventude freia menos os artistas, em cujos Jean Giraud, que muda seu herói de uma animosidade e de uma sexualidade ainda mais forte.


3. Ele tem colaborado em “Hara-Kiri”.

Desejando alargar seu horizonte, ele desenha a ficção científica em diversas revistas. E pega um pseudônimo para a ocasião, Mœbius, tomado emprestado de um matemático alemão, August Ferdinand Möbius, e do anel de mesmo nome. Essa assinatura apareceria pela primeira vez em L’Homme du XXIe siècle em Hara-Kiri, desde 1963. A revista “amalucada e maldosa” publicará uma dezena de suas histórias.


4. Jean Giraud, Mœbius, duas obras distintas.

“Eu tinha necessidade de uma senha para navegar de um mundo ao outro e poder retornar”, ele justifica em uma entrevista concedida aos Inrockuptibles. Jean Giraud, ou em menor medida Gir, seu terceiro pseudônimo, é o autor de western que aplica os códigos clássicos da HQ do início dos anos 1960. Mœbius é um visionário que escreve no futuro. De um lado Blueberry, do outro Arzach – cujas aventuras fazem a felicidade dos Humanoïdes Associés e de Métal Hurlant, a editora e o trimestral (depois mensal) “reservado aos adultos” que ele cria, em 1975, com Jean-Pierre Dionnet, Philippe Druillet e Bernard Farkas. Sem Dr. Jekyll e Mr. Hyde, sem esquizofrenia, mas duas obras distintas.


5. Ele tem transtornado os códigos e as forma da HQ.

Com o western, ele é realista ao extremo, mas também mestre do ritmo e do movimento. Com o chileno Alejandro Jodorowsky, de 1981 a 1989, sempre fluído e fácil, ele ultrapassa a ficção científica e se fricciona à metafísica na série L’Incal, em cuja alguns pretendem que os dois primeiros volumes sejam sua obra-prima. Entre os dois, seu estilo varia. A cada vez, ele faz mexer as linhas.


6. A maconha como experiência transcendental.

Maconha, cogumelos alucinógenos, xamanismo. Jean Giraud é um adepto das substâncias e das técnicas que fazem rir – e trabalhar o imaginário. Iniciado em maconha, no México, em 1956, ele se serve apenas para se transcender, nunca, ele diz, para um prazer improdutivo: “Ver os colegas acender os baseados de manhã, ao despertar, foi o sinal do desvio do rumo.”

N. C.: Em entrevista a Magali Aubert, Jean Giraud, em relação à maconha, disse o seguinte: (...) Em seguida, sobretudo com minha esposa, eu tenho tomado a decisão de parar de fumar baseados. (...) e como eu me aproximava dos sessenta, a maconha tirava minhas reservas de cálcio, de vitamina C. Moebius : une poignée de myrtilles, entrevista publicada na revista “Stardand Magazine” nº 22, janeiro de 2009, Paris, França; Moebius: um punhado de mirtilos – Entrevista, uma das postagens do blog Blueberry.


7. Ele tem colaborado muito com o cinema.

Desde 1975, ele é solicitado para trabalhar, já com Alejandro Jodorowsky, sobre a adaptação de Dune, de Franck Herbert. O projeto não verá nunca a luz – mas será em grande parte reciclado em L’Incal. Mœbius tem participado de numerosos filmes no universo gráfico impressionante: Alien, Abyss, Le Cinquième élement, Tron: l’original... A Fondation Cartier projeta seu primeiro curta-metragem pessoal.


8. A revolução Tron em 1982.

O universo do filme coimaginado por Mœbius é inteiramente informatizado. A produção também. Os dois primeiros e uma pequena revolução, que tem marcado a ficção científica até hoje. Em 2011, é lançada a sequência, na França, Tron l’héritage, cuja trilha sonora tem sido composta pelo grupo Daft Punk. Mœbius não figura ao genérico.


9. Ele tem reeditado Arzak: destination tassili.

Arzak (1976) é um álbum onírico, que tem revolucionado o gênero, por sua ausência de diálogos, e mesmo de roteiro, dizem seus detratores, seu ambiente muito sombrio, seu traço apurado. Um novo opus é publicado em 2009 e tem sido reeditado, em 2010, em grande formato e em cores, sob o título de L’Arpenteur.



10. Ele é reconhecido mundialmente.

Além de Hollywood, ele tem influenciado todos os novos comics americanos. Apoteose? Seu Surfer d’Argent, em 1988, escrito pelo lendário Stan Lee, pilar da Marvel. No Japão, terra do mangá, onde a história em quadrinhos europeia é ultraconfidencial, ele é uma referência para numerosos autores, como Miyazaki, Tanigushi ou Otomo. Ele tem exposto em Kyoto, em maio de 2009.

Fonte: L’Express, Paris, França.

Dix raisons de regretter Jean Giraud, alias Moebius © Baptiste Manzinali - L’Express 2010, 2012


Afrânio Braga



sexta-feira, 1 de julho de 2016

“La Jeunesse de Blueberry” nº 9 “Le Prix du sang”

Capa, edição de 1994. 


Prancha 1. 


Prancha 2. 


Prancha 3. 


Prancha 4. 


Prancha 5. 


Prancha 24. 


Prancha 25. 


Contracapa, edição de 1994.


Ficha técnica

“Le Prix du sang”
“O Preço do Sangue”
Roteiro: François Corteggiani
Desenhos e capa: Colin Wilson
Cores: Janet Gale
Volume: 9
Ano de publicação: 1994 (1); 2000 (1) (2); 2001 (1); 2005 (3) (4)
Número de pranchas: 46
Gênero: Western
Preço: 11.99 €
Formato: 22,5x29,5 cm
Público: Todos os públicos – Família
Dargaud Éditeur, Paris, França

Fonte: Dargaud Éditeur e Bedetheque.

N. C.: 1) Capa dupla – o desenho se estende da capa à contracapa. 2) Collection Les indispensables de la BD. 3) Contracapa: ilustração de Blueberry jovem por Jean Giraud. 4) As contracapas das quatro edições apresentam os títulos publicados de “Blueberry”, “Marshal Blueberry”, “La Jeunesse de Blueberry” e “Hors collections” até então.

Nos anos 1970, Charlier e Giraud tiveram a ideia de contar aquela que havia sido a juventude tumultuosa de Blueberry durante a Guerra de Secessão. Enquanto a saga de Blueberry aparecia em “Pilote”, essas narrativas de uma “vida anterior” apareciam nos “Super Pocket Pilote”, depois em álbuns.

Três títulos foram criados por Charlier e Giraud: “La Jeunesse de Blueberry”, “Un Yankee nommé Blueberry” e “Cavalier Bleu”. Em 1984 e em 1985, eles pediram ao desenhista Colin Wilson realizar os episódios seguintes. Em 1989, o grande Manitu tinha se lembrado de Charlier ao seu lado, François Corteggiani acaba o roteiro de “Le Raid infernal”. Hoje, após “La Poursuite impitoyable” e “Trois Hommes pour Atlanta”, a talentosa dupla assina “Le Prix du sang”.

Blueberry é encarregado de localizar os obstáculos suscetíveis de impedir o avanço das tropas nortistas. Com Grayson, Homer e um pequeno grupo de voluntários negros, ele adentra-se nas linhas sulistas e descobre a existência de um enorme entreposto de víveres. Decidido a utilizar uma plantação dos arredores como base de ação contra o entreposto, ele vai ter dois encontros: o sinistro Henry S. Bowman, assassino notório e canalha de primeira, e a jovem e enérgica Elisabeth Reynes, que dirige aquela estranha plantação povoada de mulheres. O enfrentamento com Bowman será sangrento, mas Blueberry levará com ele a lembrança de Elisabeth, tão frágil e bela como aquelas pequenas candeias que, às vezes, iluminam a noite mais escura. (1)

Essa aventura, cheia de barulho e de furor, marca o retorno de uma coleção tornada lendária no seio de Dargaud Éditeur, onde ela nasceu há vinte anos.

Fonte: Dargaud Éditeur.

N. C.: 1) “...Blueberry levará com ele a lembrança de Elisabeth, tão frágil e bela como aquelas pequenas candeias que, às vezes, iluminam a noite mais escura” - extraído da conversa entre Blueberry e Elisabeth, na despedida do tenente, prancha 46:
Blueberry: Eu não sei o quê dizer...
Elisabeth: Então não diga nada... Adeus, tenente...
B: Mike... Eu me chamo Mike...
(De surpresa, ele a beija nos lábios).
E: Mas o quê você fez?!
B: Eu queria deixar uma lembrança, senhorita...
B: Como uma daquelas pequenas candeias que iluminam, de tempos em tempos, a noite escura na qual se avança...


A contracapa, Dargaud, 2005.


Último álbum do ciclo Bowman com algumas boas ideias como aquela plantação gerida, cultivada e guardada pelas mulheres. Mas apesar de alguns bons aspectos, há muitas simplificações.

Para seu último álbum na série, Janet Gale, a esposa de Colin Wilson (se me lembro bem), nos oferece suas melhores cores até então.

Voltaire

Fonte: Bedetheque.

N. C.: Colin Wilson e Janet Gale, um casal neozelandês, vivem, atualmente, na Austrália.


A série “Blueberry” foi criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud.

Fonte das imagens: Bedetheque: capa, pranchas 24 e 25, contracapa, 1994; contracapa, 2005. BDfugue: pranchas 1, 2, 3, 4 e 5.

La Jeunesse de Blueberry nº 9 Le prix du sang © François Corteggiani, Colin Wilson, Dargaud Éditeur 1994, 2000, 2001, 2005

Afrânio Braga